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sobre quando boneco e manipulador se separam

O Cantil surgiu de uma vontade antiga de trabalhar com A Exceção e a Regra, peça escrita por Bertolt Brecht. A primeira leitura da peça foi reveladora, como acontece com os bons textos e com tudo na vida que tem força de transformação. O texto continuou me perseguindo e eu, apaixonada, não resisti: o utilizei nas aulas de interpretação, o examinei através do que chamei de cenas exemplares com os alunos no curso de Artes Cênicas, o relia de novo de vez em quando, fiz muitas anotações. Disso tudo surgiu um roteiro de ações, sem falas, que trabalha isolando a relação patrão-empregado e as temáticas recorrentes na poética brechtiana: o acordo, o comportamento associal, indivíduo versus coletivo. Se o roteiro deu forma à cena ou se a manipulação direta como escolha estética redefiniu o roteiro, sobre isso já não sei precisar. Quando quis realiza-lo com atores não imaginava que seria criado um novo texto, nem a dimensão que as limitações da experiência de tornar expressão e fala nulas poderia ganhar. O roteiro foi revisto, alinhavado, desfeito, costurado, refeito inúmeras vezes, até não precisarmos mais dele. O texto que o gesto continha ganhou com a música uma expressão própria e surpreendente. A música deu sentido ao gesto, o gesto dividiu e amplificou sua expressão na paisagem sonora. As cores, as texturas, o claro-escuro na profundidade ficcional da cena imprimiram ao espetáculo uma visualidade que talvez não pudéssemos supor. O que importa é tudo isso definia o que estávamos realizando, embora não seja ainda algo que possamos nomear - até para evitar o excesso de conceitos e enquadramentos - mas que nos reúne de forma definitiva em torno de um trabalho coletivo. O Cantil, processo criativo e espetáculo, é um trabalho de grupo.

Uma cena importante é a que marca o primeiro afastamento entre os manipuladores e os bonecos, isolando-os como num registro fotográfico. Os viajantes já estão há cerca de três dias seguindo errantes por um caminho difícil e quente. Deparam-se, repentinamente com uma grande seta, sem maiores indicações. A visão da seta conforma o carregador, porque confirma a direção que ele havia indicado anteriormente ao patrão. O dia seguinte revelará que a direção é falsa, porque não os leva ao que buscam, é uma confirmação atroz de uma caminhada em círculos, porque reencontram, largada em frente à seta, uma maleta da bagagem, mostrando que voltaram para o mesmo lugar depois de um dia longo de caminhada. Esse retorno sinaliza a ansiedade do patrão, a suposta tranqüilidade do carregador e define a tensão da relação entre os dois. Na encenação, marcamos esse primeiro desnudamento da situação com a exposição silenciosa do gesto de confirmação do caminho, suspendendo dramaticamene a ação. A revelação na cena seguinte faz uma conexão com o gesto paralisado da cena anterior, dando ao gesto o valor de citação, como indica Walter Benjamin.

Construído sobre um roteiro de ações que se apropria da relação patrão-empregado exposta na peça A exceção e a regra de Brecht, o texto de O Cantil se fez nos ensaios e se revela na encenação, em profundo trabalho colaborativo.

No nosso trabalho enfatizamos a atitude de demonstração em detrimento da interpretação convencional ou da composição através da emoção. A situação é que se faz texto, os personagens estão em segundo plano, os atores mostram como seriam os gestos, como seriam as reações. Elas não são vivenciadas, mas reveladas através do exame, da repetição e da exposição de um coletivo gestual e plástico.
A manipulação direta e aparente nos oferece a metáfora geradora de toda a concepção de cena, desde seu aspecto formal (cenografia, disposição dos elementos de cena, sonoplastia, figurino) até a representação. Assim estabelecemos novas funções para os tradicionais lugares de boneco e manipulador, através da fusão das figuras do boneco-narrador e do manipulador-narrador.

Entendemos que uma forma de enfatizar a temática da contradição social através da manipulação se materializaria na revelação dos lugares ocupados pelo boneco e pelo manipulador, rompendo a convenção da ilusão e oferecendo ao público uma nova forma de percepção, através da surpresa e da condesação de funções. Como trabalhamos através da manipulação como metáfora da relação opressiva entre os personagens, podemos mostrar essa relação sem censura, perfeitamente aceitável com bonecos, já que o boneco atua também como instrumento de distanciamento.

Talvez o aspecto mais importante da montagem de "O Cantil" esteja em estimular os atores no desafio de representar bonecos em toda a sua dimensão, ou seja, experimentando a possibilidade de anular-se expressivamente, enquanto outro ator manipula e define os movimentos necessários a cada ação. Essa ilusão da manipulação é mais um dos exercícios experimentados pelo grupo em sua pesquisa, já que a ilusão construída é desfeita e recriada continuamente no ocultamento-revelação das funções desempenhadas, deflagrando que a situação de opressão é forçosa e transferível.

Fran Teixeira

contato@teatromaquina.com