Uma notícia recente jogou os holofotes nacionais sobre o teatro cearense. O grupo Teatro Máquina, formado por egressos do curso de Artes Cênicas do Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará (Cefet-CE), é finalista da edição paulista do 21º Prêmio Shell com a peça O Cantil. A indicação consagra o sucesso de um dos trabalhos mais consistentes produzidos no teatro local nos últimos anos.
Sob o comando de Fran Teixeira, professora do curso e mestre em Artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP, o grupo se dedica a esmiuçar o teatro épico de Bertolt Brecht. O objetivo é encontrar maneiras de encaixar conteúdos contemporâneos em formas propostas pelo dramaturgo alemão. O caminho para isso é de muita pesquisa e formulação.
Surgido em 2003 sob a alcunha de Ba-guá, o grupo tem outros três espetáculos no currículo. No entanto, nenhum outro alcançou a repercussão que O Cantil vem tendo. Fran está se preparando para fazer o doutorado em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia. No entanto, o trabalho do grupo deve continuar em 2009 com remontagens do próprio repertório da companhia. O Vida & Arte acompanha a trajetória da companhia desde o início. Em julho de 2003, o caderno deu destaque à pesquisa da professora e à encenação de Quanto Custo o Ferro?, primeira peça do grupo. Na entrevista, Fran faz um diagnóstico da atual cena teatral cearense e aponta os desafios para a profissionalização dela nos próximos anos.
O POVO - O teatro cearense passou por uma sacudida grande com os cursos do extinto Instituto Dragão do Mar. Hoje o que se vê é a diminuição de políticas de formação esporádicas e a consolidação de cursos superiores em Artes Cênicas. De que forma essa nova conjuntura deve interferir na produção teatral do Estado nos próximos anos?
Fran Teixeira - Acredito que através das relações que arte e formação superior podem suscitar podemos ter a longo prazo uma produção em teatro mais comprometida, profissional e lúcida. Ainda fazemos um teatro muito intuitivo e às vezes inconseqüente, daí sua vida curta, porque não tem um projeto organizado, amadurecido. Um curso superior é também um lugar para encontrar parceiros e trabalhar sem a pressão imediata do mercado porque é possível pesquisar e se envolver com um tema de forma mais aprofundada.
OP - Atualmente, vemos um momento com muitas produções adaptadas de obras literárias ou de textos já existentes. Está faltando dramaturgo no Estado? Você vê perspectivas de uma formação mais consistente em dramaturgia por aqui?
Fran - Nossa cidade tem dramaturgos incríveis e em plena atividade. José Mapurunga, Edilberto Mendes, Emmanuel Nogueira, para citar alguns dos bons, fora a generosidade que o Marcos Barbosa pratica com seus textos através do seu site. Não vejo nenhuma relação direta entre formação em dramaturgia e encenação de textos de autores cearenses. Entendo as adaptações como um trabalho delicado de dramaturgia e sei que muitas vezes o que acontece é que os anseios dos artistas estão mesmo melhor representados em autores da prosa. Acho que precisamos conhecer melhor nossos autores e nossos clássicos também, a leitura é a melhor formação em dramaturgia.
OP - Ainda falta profissionalização na cadeia produtiva do teatro local? Caso positivo, o que você sugeriria para contornar a situação?
Fran - Radicalmente falando, acho que não temos teatro profissional em Fortaleza. Temos experiências superpositivas, muito esforço, trabalhos sérios, mas ainda não temos teatro profissional. Os artistas da cena ainda têm que se dividir em atividades de produção e outras de caráter mais técnico, porque ainda trabalhamos dando um jeitinho, contando com os amigos, com a família. Precisamos contar com o Estado, isso sim, com uma política de continuidade e fomento, para que os artistas e grupos possam se estruturar e possamos formar coletivos de trabalho com funções definidas e tarefas divididas. Não é uma situação que se possa contornar, é preciso um entendimento do governo sobre a importância da subvenção para que uma cadeia produtiva em teatro, por exemplo, adquira a profissionalização.
OP - Uma das características presentes no trabalho recente do Teatro Máquina é a associação entre teatro e dança. Para você, que possibilidades essa conjunção pode trazer para a cena? Você percebe esse diálogo do teatro com outras linguagens em outros grupos daqui? A tendência é mesmo essa?
Fran - Não se se trata de uma tendência. Acho que as fronteiras entre teatro, dança, performance, artes visuais é que vem se diluindo, como diz Christine Greiner, os limites entre elas estão borrados. São linguagens que se hibridizam como uma necessidade de expressão, sem a premissa de “que agora tem que ser assim”. O grupo Fuzuê e o espetáculo Respiro é um dos exemplos locais disso que estamos falando.
OP - Como você percebe a atual cena teatral daqui? Está dinâmica? Precisa de um pouco mais de impulso? Que perspectivas você tem para ela?
Fran - Acho que ainda precisamos de calma pra trabalhar. E também de descobrir novas possibilidades e espaços para estar em cartaz. Temos ótimos projetos de formação de platéia, como os do Dragão do Mar e do Centro Cultural Banco do Nordeste, mas os espetáculos de teatro tem que permanecer mais tempo em cartaz. Uma apresentação por semana, como a maioria dos projetos ainda oferece, é muito pouco para que o espetáculo possa ser revisto, dinamizado, aprofundado pelo próprio grupo. Talvez a cena esteja dinâmica demais e estejamos perdendo a chance de sofisticar nossos trabalhos por excesso de produções esporádicas e sem permanência.
OP - Que papel você definiria para as políticas públicas para o teatro local nesse momento?
Fran - A definição de políticas públicas para o teatro precisa incluir mais as vozes dos artistas, mas os artistas também precisam saber discutir melhor essas questões. Acredito que o fomento à pesquisa, o estímulo às residências artísticas com trocas entre grupos e a garantia de espaços adequados para exibição e circulação é mais do que urgente. Já temos uma cena bem diferente depois dos editais municipais e estaduais, mas ainda urge uma ação cultural de continuidade e incentivo aos processos criativos, sem a expectativa do produto.