"A gente recebeu a notícia hoje de que O Cantil foi selecionado para o I Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia. Vai ser a nossa primeira viagem fora do Ceará", sorri Joel Monteiro, assistente de produção do Teatro Máquina. A notícia chegou de surpresa para alguns integrantes do grupo, durante a entrevista na última segunda-feira. Edivaldo Batista, um dos atores mais engraçados, começa a se tremer, brincando. "Meu povo, deixa eu beber uma água. A gente só recebe essas notícias assim, de repente". Todos riem.
A confirmação vem em um momento muito feliz para o grupo. Após a bem sucedida estréia do espetáculo O Cantil, em junho deste ano, o grupo vem se mobilizando para mostrar ao Brasil o seu trabalho. Nos meses de novembro e dezembro, eles possuem agenda certa para se apresentarem no Centro Cultural São Paulo, resultado de uma grande peneira nacional do qual apenas 11 foram selecionados, de 147 inscritos.
Com as duas notícias ainda incomuns, em tão curto tempo, o Teatro Máquina tem uma mudança em sua rotina. Além de desenvolver em paralelo suas atividades de ensaios e exercícios corporais, eles precisam se mobilizar para arrecadação dinheiro e garantir a participação nos dois eventos. Nesse período, os seis componentes não abrem mão do estudo e da pesquisa. Atualmente, estudam e debate o livro Teatro pós-dramático, do alemão Hans-Thies Lehmann. Tudo isso, sem perder o bom-humor. Descontração, piadas e finas ironias são elementos constantes no convívio dos atores e amigos.
Mas na hora de ensaiar, o Teatro Máquina é sério. E muito. "A gente tem um momento inicial pra atualizar as conversas, repassar alguns informes. Depois geralmente o Márcio (Medeiros) puxa um aquecimento de cerca de 30 a 40 minutos e partimos para os ensaios. Quando já temos cenas prontas, seguimos direto, sem pausa, por duas horas, geralmente. Depois sentamos um pouco para discutir. Às vezes escrevo alguma coisa durante o ensaio para não atrapalhar a construção de cena, outras vezes interrompo e refazemos novamente", explica Fran Teixeira, diretora do Grupo.
Influência de Brecht
Para a montagem de O Cantil, foram mais de oito meses de intensos ensaios. O espetáculo é um experimento a partir do texto A exceção e a regra, de Brecht. A direção optou por dispensar as falas e a expressão facial. As personagens são bonecos-humanos, manipulados por atores. Todos com as faces cobertas.
Com apenas cinco anos na cena local, o Teatro Máquina possui uma trajetória consistente. Os resultados das atuais seleções é apenas o começo de um futuro promissor. O grupo tem como principal destaque a realização de investigação sobre o teatro épico de Bertolt Brecht.
Mesmo na trajetória curta, o grupo se destaca pela consolidação de linguagem experimental e peculiar. "Hoje, o nosso interesse está mais em tratar conteúdos da nossa realidade pela forma do teatro brechtiano. A gente busca mais a relação forma/conteúdo, onde não dê para diferenciar esses dois elementos. Isso está em Brecht", comenta Fran. Ela também é autora do livro Prazer e crítica: o conceito de diversão no teatro de Bertolt Brech, (Annablume, 2003) resultado de sua dissertação de mestrado. Existe, portanto, no Teatro Máquina, uma herança íntima com o dramaturgo alemão, mas sem propriamente desenvolver o seu método ou amarra-se em uma corrente.
Formado, em maioria, por egressos do curso de Artes Cênicas do Cefet, do qual Fran Teixeira é a atual coordenadora, o Teatro Máquina ainda não possui sede própria. Os encontros se dividem entre o Cefet e a própria residência da diretora. O material dos quatro espetáculos montados fica hospedado em um galpão, com aluguel mensal. Os ensaios acontecem nas salas do Cefet, mas sofrem a limitação do grupo ter de se adequar aos horários do local.
A realidade, no entanto, tende a mudar em breve. O grupo foi contemplado no II Edital das Artes da Funcet, na categoria manutenção de grupo. Com o recurso, ainda atrasado, o Teatro Máquina deverá alugar um espaço para si e garantir maior liberdade para suas atividades. "Com a sede, a gente vai poder ter o nosso local e manter nosso repertório sempre ensaiado. Dando mais cara de grupo mesmo para a gente", comenta Fran Teixeira.
Espetáculos do Grupo
Quanto custa o Ferro? - 2003
Leonce + Lena - 2005
Répéter - 2007
O Cantil - 2008 |