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Poder e manipulação.

O Cantil, do grupo de teatro Máquina, tem hoje a última apresentação da temporada de estréia. O espetáculo tem produção cuidadosa e faz uma adaptação de um clássico de Bertolt Brecht, A Exceção e a Regra.

Angélica Feitosa - Jornal O Povo
20.Junho.2008
Fran Teixeira se deu a liberdade de fazer mudanças nos meandros do texto de Bertolt Brecht, A exceção e a regra, mas conservou seu cerne, o que tinha de mais radical. Atreveu-se em tirar a palavra de um dos textos clássicos do teatro, considerado dos melhores. Do miolo fez ajustes, juntou massa, luz e som. Do forno, saiu um espetáculo em brasa. A mistura foi batizada prudentemente de O Cantil, e pode ser deglutida no último dia da temporada de estréia, hoje, 20, no teatro do Centro Dragão do Mar.

O teatro épico de Brecht permite justamente colocar o público em diálogo com a peça. A tentativa do autor alemão da primeira metade do século XX de romper com a distância do palco italiano em relação à platéia - e fazê-la parte da representação - garantiu a liberdade de Fran na montagem do grupo de Teatro Máquina. Inclusive, na forma escolhida para a vida dos personagens. Patrão e empregado são atores, feitos bonecos. Os manipuladores comandam a cena, ditam as regras, e os bonecos colaboram submissos, em sintonia que impressiona, principalmente pelas condições de cena: o figurino os enfaixa, os atores/bonecos estão parcialmente cegos; no palco, se deslocam constantemente, em entrega total.

Da ousadia da diretora, brota um teatro tenso, inquietante, que usa de três narrativas principais para contar a história do homem do ocidente que contrata um empregado do oriente para uma travessia no deserto. Suprimidas as falas, são nos gestos que se confere a principal forma de expor os fatos. Percebemos claramente a rigidez do espetáculo, causada pelo empregado extremamente submisso e o patrão explorador e algo que está sempre posto, mas nunca acontece, que é a rebelação do empregado e a conseqüente desconfiança do patrão com a servilismo total.

Nesse ponto, O Cantil dialoga com O Pupilo Quer Ser Tutor, texto do dramaturgo Peter Handle, recentemente apresentada em Fortaleza pela Cia. Teatro Sim... Por que Não? (SC), mas com um ganho fundamental: os níveis de inquietação provocados pelos dois espetáculos são similares, mas, em O Pupilo..., a expressão facial ajuda nessa proposição. O Cantil, portanto, alcança a transmissão de tensão com o mérito de um caminho muito mais difícil e de uma forma tão bem construída.

Outras duas narrativas se juntam ao gestual. Na música, Dustan Gallas foi o responsável por incitar um conto próprio, que segue o percurso das ações do palco. A música limita as fronteiras do ocidente/ oriente, compõem a história relaxando e tencionando. Na maioria dos usos, cumpre com tenacidade o papel. Entretanto, em momentos pontuais, a trilha que deveria ser responsável por direcionar a cena, acaba causando um resultado um pouco exagerado, desnecessário, em instantes em que a ação já seria forte o suficiente. Isso, entretanto, passa longe de comprometer o espetáculo, de produção bem elaborada, na qual se percebe claramente cuidado e respeito ao público nas composições.

A relação patrão e empregado é sempre mediada pelo cantil, quando se expressa o ápice da subserviência. Nos momentos de distensão, quando o empregado se prepara para o descanso, ainda é preciso servir. Isso torna-se claro pelo uso de repetições, que marcam o gesto do passar do cantil. O tempo inteiro, a relação está clara, e se os papéis fossem trocados, provavelmente, seriam as mesmas atitudes do patrão e do empregado.

Em alguns pontos, o que pode parecer um erro, na verdade é proposital. Lidando com a representação, o Teatro Máquina está o tempo todo lembrando ao público: isso é teatro. A quebra da realidade se dá em momentos em que a luz flagra a cortina sendo baixada, atores se posicionando em cena - a luz, longe de ser precoce, é premeditada.

Entre tantos espetáculos que usam do conflito para discutir contradições, exploração do homem pelo homem, relação de dominador e dominado, o Teatro Máquina consegue construir uma narrativa nova, talvez não inédita, mas capaz de provocar suscitações, questionamentos e, ao mesmo tempo entreter. Como o próprio Brecht fez.
link para a para a notícia original: http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/797953.html
contato@teatromaquina.com