Na peça Répéter, o Teatro Máquina se libertou da criação dramatúrgica convencional. Pôs, no princípio, a repetição como fio condutor, ou melhor, mecanismo detonador do movimento, do gesto, da composição do espaço. Não há diálogo. Antes, o corpo comunicando, nesses gestos, a despedida, o adeus, o desencontro. Tudo isso sempre baseado em regras, como num jogo, e também em possibilidades do destino, como na vida. O espetáculo, que entra em cartaz a partir de hoje às 20 horas, no Teatro Dragão do Mar, tem a promessa de ser, ao longo de seus 40 minutos, uma surpresa compartilhada entre os que estão no palco e aqueles da plateia, porque, aos atores, fica o encargo de improvisar dentro de regras estabelecidas anteriormente.
A montagem é a distensão de um esquete com o qual o grupo já trabalha desde 2006. Good-Bye, que fazia parte da primeira montagem de Répéter em 2007, se mostrou cheio de possibilidades e ocupou sozinho o lugar que antes dividia com Jânio Soul e Beijos e Encontros Consonantais, outros dois esquetes. “Nós vimos em Good-Bye os elementos da repetição, do ensaio, e que aquilo poderia ser ampliado”, diz Fran Teixeira, que dirige o espetáculo junto com Márcio Medeiros, também um dos atores.
Assim foi feito. E, na experimentação, seis ações de despedida se apresentam em diferentes ângulos. “Mas nunca a gente repete da mesma forma. Não é reprodução, mas sempre uma recriação. É uma tentativa de exercitar tecnicamente esse conceito de repetição para entender as possibilidades das variações. O objetivo é uma maneira de falar, de forma criativa, sobre esses procedimentos que a gente utiliza”, explica a diretora.
A fonte, na qual o grupo foi beber, é o Teatro Épico, do alemão Bertolt Brecht (1898-1956). De lá, retirou algumas características que se enrodilham nas teias de suas peças. Principalmente, uma ruptura de tempo-espaço entre as cenas pelo estranhamento e a exposição dos bastidores, das coxias - como na mais recente O Cantil (2008) onde, às vistas do público, estavam os bonecos operados por outros atores, além da movimentação cênica que exibia o que, supostamente, deveria estar escondido.
Com Répéter, a pesquisa se aprofunda. “Ao invés de simplesmente realizar um gesto, a gente trabalha com a decomposição de cada etapa para que chegue nesse gesto. Vamos separando as partes e trabalhando numa recriação. É como se fosse um trabalho de trás para frente, para entender o começo”, argumenta Fran Teixeira.
Embora a pesquisa esteja nas raízes do grupo, iniciado em 2003, é a primeira vez que o flerte com a dança e a performance são a tônica de um espetáculo deles. “É o primeiro experimento nesse novo formato e vamos sofisticando isso ao longo do tempo. É uma revisão do repertório sem pressa”, conclui Fran. A conferir.
SERVIÇO
RÉPÉTER
Com direção de Fran Teixeira e Márcio Medeiros, o espetáculo estreia hoje, às 20 horas, no Teatro do Centro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema). A temporada continua sempre às terças-feiras de junho no mesmo horário. Ingressos: R$ 2 (inteira) e R$ 1 (meia). Outras informações:
3488 8600.