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Ceará em primeiro plano.

Grupo Teatro Máquina surpreende e ganha indicação especial ao Prêmio Shell (SP) pela pesquisa da peça “O Cantil”.

Magela Lima - Diário do Nordeste
15.Janeiro.2009

Passados sete meses desde a estréia de “O Cantil”, o Grupo Teatro Máquina, capitaneado pela diretora Fran Teixeira, segue trilhando uma trajetória de sucesso. Além de duas bem sucedidas temporadas locais e passagens por importantes mostras Brasil afora — a exemplo da primeira edição do Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia, do qual saiu comentado como “a grande surpresa da programação” —, o espetáculo acaba de conquistar mais um feito ao garantir espaço na cobiçada lista do tradicional Prêmio Shell de Teatro de São Paulo.

Criada há mais de 20 anos, a premiação tonou-se uma das principais vitrines para do teatro nacional. Com edições voltadas apenas para os palcos paulistanos e cariocas, o Prêmio Shell tem funcionado, ainda, como um agente valorativo para as companhias de fora do eixo. Agora em 2009, Minas Gerais e Ceará furaram o cerco e receberam indicações bastante significativas. De Belo Horizonte, seguindo o caminho aberto por “Por Elise”, o Grupo Espanca! volta a chamar atenção com nada menos que três indicações para “Amores Surdos”: Grace Passô (dramaturgia), Rita Clemente (direção) e Bruna Christófaro (cenário).

Também na linha de frente do recente teatro mineiro, a Cia. Luna Lunera foi lembrada pelo Prêmio Shell. A parceria de Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e José Walter Albinati em “Aqueles Dois” foi indicada tanto para a categoria direção quanto para cenário e Felipe Cosse e Juliano Coelho para iluminação. No caso de “O Cantil”, a surpresa é ainda maior pelo pioneirismo entre os grupos locais. O espetáculo do Grupo Teatro Máquina concorre numa categoria especial ao lado de grandes nomes do teatro brasileiro. Versão do clássico “A exceção e a regra”, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), a montagem foi destacada pelo júri formado por Kil Abreu (jornalista e pesquisador do teatro), Valmir Santos (jornalista), Marici Salomão (autora teatral e jornalista), Mario Bolognesi (professor e pesquisador de teatro) e Noemi Marinho (atriz, dramaturga e diretora), justamente pelo cerne de sua pesquisa.

Marionetes humanas
Inicialmente pensado para ser realizado como teatro de bonecos, numa parceria entre os diretores Omar Rocha, do Circo Tupiniquim, e Fran Teixeira, “O Cantil” acabou deixando de lado os seres inanimados e transformando os próprios atores numa espécie de “marionete viva”. O elenco composto pelos atores Edivaldo Batista, Aline Silva, Levy Mota e Márcio Medeiros se dividem como manipuladores e bonecos, numa releitura da técnica do tradicional teatro de animação japonês, o bunraku. Com uma iluminação primorosa de Walter Façanha — infelizmente, não citado na lista do Prêmio Shell —, “O Cantil” convida o público a contestar interpretações, trazendo a narrativa original de Brecht para uma dimensão mais gestual. Ao optar por fragmentar a dramaturgia, Fran Teixeira condensa as ações e reações dos dois tipos centrais da trama, o patrão e o empregado, sem cair na tentação de rever os fundamentos do chamado Teatro Épico.

Novo teatro nordestino
Local, sem, no entanto, se ajustar às rubricas com que o eixo Rio de Janeiro-São Paulo tem tratado a cena nordestina, o Grupo Teatro Máquina e seu “O Cantil” são exemplos de uma movimentação recente, em que os artistas nordestinos têm procurado encontrar novas soluções de composição. Destaque nesse panorama, dividindo espaço com trupes como o também cearense Grupo Bagaceira, o potiguar Clowns de Shakespeare e o pernambucano Coletivo Angu de Teatro, dentre outros, a companhia aposta num trânsito com os grandes centros culturais do Brasil, não mais com uma postura de subserviência. Pouco a pouco, a empreitada tem rendido frutos. Bom exemplo disso, sem dúvida, é a indicação de “O Cantil” para o Prêmio Shell. Independente do resultado final, divulgado sempre no mês de março, o Ceará e o Nordeste já podem comemorar.

CATEGORIA ESPECIAL

Aderbal Freire-Filho
com Bárbara Harrington e Wagner Moura, pela tradução de ´Hamlet´.
Grupo Sobrevento, pela pesquisa da técnica dos ´pupi´ no espetáculo de bonecos ´Orlando Furioso.
Teatro Máquina, pela técnica de manipulação direta e aparente do espetáculo ´O Cantil´.
Centro de Pesquisa Teatral do Sesc , pelos dez anos do projeto Prêt-à-Porter, com direção de Antunes Filho.
Grupo XIX de Teatro, pela pesquisa e criação de ´Arrufos´.


ENTREVISTA - FRAN TEIXEIRA
Diretora do Grupo Teatro Máquina

De que forma essa indicação ao Prêmio Shell fortalece a pesquisa do Grupo Teatro Máquina?
Uma coisa bacana é que a gente foi indicado numa categoria especial justamente destacando a proposta de manipulação que desenvolvemos para o espetáculo. Nunca tínhamos feito um trabalho nessa linha e acabamos sendo destacados por um desafio que nos colocamos para o desenvolvimento da montagem. Então, vejo aí um incentivo para que a gente continue se encorajando a percorrer caminhos desconhecidos.

Você diria que há aí um raro encontro entre opinião de público e crítica especializada?
“O Cantil” recebeu algumas críticas do ponto de vista dramatúrgico, por conta da livre interpretação que fizemos do texto do Brecht. Pouca gente entendeu que a gente estava mais interessado numa investigação técnica que dramatúrgica, mas o público em geral reagiu bem. A manipulação foi sempre um dos aspectos mais comentados e, pensando bem, eu acho que essa indicação ao Prêmio Shell estabelece, sim, um bom diálogo entre crítica e público.

Muito bem aceito nas temporadas aqui em Fortaleza, “O Cantil” percorreu importantes festivais regionais, antes de chegar em São Paulo. Qual a receptividade para o teatro nordestino?
Olha, há, sim, uma mudança em relação à expectativa tradicional em torno do teatro nordestino em São Paulo. Nada muito amplo, ainda, mas uma mudança que considero muito importante. O trabalho sério que grupos como o Bagaceira, daqui mesmo de Fortaleza, e o Clowns de Shakespeare, de Natal, tem contribuído para essa nova realidade. Hoje, quando um grupo do Nordeste chega em temporada em São Paulo, pelo menos entre o público mais especializado, já não é mais recorrente as rubricas do humor e do popular.

Grande parte do seu elenco é egresso do Curso de Artes Cênicas do Cefet, do qual você é professora. O destaque dessa nova geração sinaliza alguma mudança na cena local?
Eu espero que sinalize. Eu acredito muito no estímulo à pesquisa, marca principal do universo acadêmico, e na formação artística continuada, que só as escolas propiciam. Tudo isso junto fortalece um teatro diferenciado, mais comprometido com a investigação, o que, sem dúvida, acaba por transformar as condições de produção e o próprio mercado.

Em “O Cantil” você retoma o encontro com o teatro de Brecht, que marcou sua estréia como diretora. Quais seus projetos futuros? Vem mais Brecht por aí?
Brecht, por enquanto, só como referência de pesquisa. Eu estou indo para o doutorado na Universidade Federal da Bahia para estudar as peças didáticas do repertório dele. Isso pode até acabar rendendo algum processo de criação, mas ainda não há nada definido. Para 2009, a gente tem como meta recuperar nosso repertório, retomando “Quanto custa o ferro?” e “Leonce+Lena”. No mais, temos um grande interesse pelo teatro do dramaturgo austríaco Peter Handke e pela poesia do Maiakóvski.

link para a para a notícia original: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?Codigo=606339
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